História de amor nos discos

Aconteceu ontem, em um sebo em São José do Rio Preto. Olhando os LPs em exposição, conheci uma bela história de amor registrada nos discos.

As turbulências do namoro começavam em uma coletânea de sambas. “Adão, quando você amar alguém, espero que ame de coração. Amar é a melhor coisa, a pior é a traição. Neide, 1980″.

Anunciando o casamento, de Neide para Adão: “Adão, eu te amo de montão. Você é o melhor esposo. Adão e Neide, 1983″.

A dupla era muito musical. Contei mais de 15 vinis com dedicatórias de um para o outro, entre 1980 e 1996. Os discos variavam: Art Popular, Tim Maia, Fundo de Quintal, Zezé di Camargo & Luciano (“Neide, quando não souber o que pensar, pense em mim”).

É uma história como tantas outras, com a diferença de que vai permanecer viva enquanto durarem as vitrolas e os apaixonados por vinil. Ela agora será dividida e vendida em partes, cada comprador poderá ter um pedacinho.

Me pergunto se as dedicatórias acabaram porque o acabou-se o amor ou se o que acabou foi a época do vinil. Quem sabe eles continuaram trocando mensagens em fitas K7 e CDs… E agora escutam músicas baixadas pela internet juntos, mesmo sem ter onde escrever.

O último recado de Adão para Neide, em 1996, em um disco da Sula Miranda:

“Neide,

Gosto de te ver ao lado do fogão com a nossa filha do lado. Às vezes temos pouca comida mas você sempre dá um jeito. Gosto de ver como você é simples. Eu sempre quero mais e tudo que vejo quero ter. Quero viver ao seu lado e ser cada dia mais como você”.

 

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A pessoa mais chata da Europa ou Sobre meu retorno

Saí da minha casa em Liverpool no último sábado, às 4 horas da manhã, sem ter dormido um minuto (julguei que isso me ajudaria a suportar as 12 horas em que permaneceria praticamente imóvel e comendo comidas enroladas em plásticos dispostas dentro de bandejinhas de papelão). Estava completamente desanimada por conta da rotina dos meus últimos meses na cidade, e também por causa da cidade – que, como comentei na small talk que tive com Fernando Meirelles em outra ocasião, é bastante escura e macabra (o Meirelles, aliás, é uma história que eu ainda não contei, pretendo consertar isso logo). Mas admito que o desânimo não durou. Logo no começo da jornada, o taxista que me levou até o aeroporto de Liverpool se impressionou incrivelmente por eu ter mencionado, em algum ponto da conversa, que nosso país havia sido colônia de Portugal. Isso me deixou feliz de volta. Lembrei que finalmente tiraria férias das expressões de extrema surpresa em resposta à minha confissão de que não falo espanhol.

Voei de Liverpool para Amsterdam. Na sala de espera para o vôo que me levaria até São Paulo, experimentei de novo a sensação de estar em um local repleto de brasileiros, depois de 9 meses com no máximo dois ou três (ou quatro, para não mentir) conterrâneos no mesmo recinto que eu. Senti uma alegria inexplicável, até um pouco idiota, daquelas alegrias que vêm sem muito motivo e não te deixam sentir mais nada. Eu gritava coisas em português por orgulho besta e ignorava completamente meu passaporte italiano, que já não servia para nada (ok, servia para me tirar de Amsterdam, ok).

Não que eu ache o Brasil o melhor país do mundo. Não que eu ache que a vida aqui seja perfeita e que pobres e segregação racial não existam no país. Mas eu não agüento por muito tempo ser amassada e comprimida a um volume bem pequeno por um bando de gente que não sabe nada de onde eu venho. Eu imagino que por isso eu deva ser a pessoa mais chata da Europa. Quando eu chego aos lugares, tenho certeza de que meus colegas pensam algo como “ótimo, mais palestras sobre o Brasil”, ou “ótimo, mais opiniões desnecessárias ditas a um volume absurdo”.  Coitada mesmo da minha vizinha de baixo, também minha colega de classe – eu a chamo de amiga, mas não sei se ela consegue fazer o mesmo. Por conta do chão fino, escuta tudo que faço como se eu estivesse ao seu lado. Estou certa de que ela não agüenta mais me ouvir tocar 5 vezes por dia Canto de Ossanha, Romaria e Água de Beber. Eu imagino que nesse exato momento ela esteja dentro do meu apartamento em Liverpool queimando todas as minhas partituras (Emily, fique sabendo que eu trouxe todas as minhas partituras preferidas. Você não vai se livrar de mim tão cedo. Mas eu estou te dando um mês de férias, você não tem do quê reclamar).

Eu não faço isso por mal, e nem me sinto bem falando tanto daqui. Mas é que eu gosto mesmo do Brasil, principalmente porque sou musicista.  E não me entendam errado, morar na Europa é muito legal. Todo dia eu penso que essa oportunidade que estou tendo é muito massa, mesmo. Mas eu sei que não ficaria para trabalhar lá, justamente por o meu “material” de estudo ser tão brasileiro.

Voltando para a viagem, já a partir do momento em que cheguei a Guarulhos, para fazer a segunda escala, senti uma mudança profunda em mim. Percebi nas pessoas daqui uma elevação na voz e uma maneira firme de pronunciar as palavras que não percebia antes. Até mesmo naquelas pessoas que não possuem firmeza nenhuma nas palavras que pronunciam eu vi isso. E vi também que morar sozinha em um país bem longe do seu faz você conseguir as coisas de que precisa mais facilmente. Finalmente acho que estou aprendendo a ser cara de pau, qualidade que eu aprecio tanto nas outras pessoas e que só consigo achar em quantidades ínfimas em mim mesma.

Quando cheguei em casa, achei que realmente era outra pessoa, e que eu nunca mais me recuperaria do choque de viver em outro país. Mas não é bem assim. Me tornei curitibana de novo em questão de três dias, quatro no máximo. Curitibana com algumas mudanças.

Ah é, eu queria aproveitar para ser bem brega e dizer o quanto me sinto feliz por ter criado tudo isso que eu criei nessa cidade, junto com quem foi e ainda é parte da minha vida. As ligações que tenho recebido dos amigos e da família, os almoços, jantas, cafés e cervejas que tenho marcado com eles, as declarações de saudades, não consigo dizer o quanto sou feliz por causa disso. Não é fácil achar amigos tão próximos e queridos. Não é fácil manter o equilíbrio familiar, nem é comum a sorte de ganhar, quem sabe do acaso, essas pessoas que me apóiam e me carregam nos ombros repetidas vezes. Acredito que me doei um pouco (ou muito) para muita gente durante os anos. E eu nunca sei bem se gosto ou não dessa característica em mim. Ela já me frustrou algumas vezes. Por outro lado, eu tenho muito. Muito mesmo.

Não sei se conseguirei construir essa proximidade com as pessoas lá de fora. Volta e meia sou extremamente irritante com meus discursos ufanistas. Mas é só porque eu amo o que tenho aqui, amigos, família e a música. Volto para Liverpool mês que vem, e estou convencida de que voltarei 90 vezes mais chata do que já era. Emily, por favor, aumente seu estoque de vinho e compre tampões de ouvido, se eu já não lhe fiz comprá-los antes.

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O mundo masculino

Tem muitas coisas dos homens que não entendo. Não entra na cabeça, não adianta nem tentar explicar. É tudo muito diferente das mulheres. Por exemplo, não entendo como eles podem gostar tanto de ver fotos de mulher pelada. Não conheço nenhuma menina que tenha o mesmo gosto por fotos de homem pelado. Tipo, o que há de tão massa assim? Como assim o apelo visual é tão forte? Enfim. Antes que venham encher o saco: não, eu não tenho inveja. Sou bem de boa com as mulheres bonitas – na verdade, sou uma das poucas que não chamam de “puta” uma menina bonita, do jeito que vejo várias mulheres por aí fazendo.

Posso não entender os homens totalmente, mas se algumas pessoas me acham estranha, boa parte deve ser por causa da minha convivência intensa com meninos. Moro com dois deles (mais ou menos, porque o Nicola não mora aqui, apesar de estar sempre presente), trabalho em um lugar que quase só tem caras e assim por diante. A convivência é contínua.

Acho que isso foi moldando meus gostos. Apesar de não ser nenhuma expert, curto filmes de ação, joguinhos de matar zumbis e essas coisas todas. Só ainda não consegui gostar muito de futebol, mas me parece que meus amigos preferem que seja assim mesmo. Claro que entendo mais de coisas de meninas, mas esses assuntos tipicamente femininos geralmente são mais tediosos. Por exemplo, falar sobre como o Bruce Willis é fodão é bem mais divertido que conversar sobre máquinas de lavar roupas, filhos e coisas assim.

Bom, estou falando tudo isso só pra dizer da importância dos meninos na minha vida. Mais especificamente os dois aniversariantes dos últimos dias: o Nicola e o meu irmão Danny Boy. Sei que o meu bloguinho está virando um antro de homenagens e corro o risco de fazer o mesmo também aqui no Contragolpes, mas que escolha tenho? Se eu tenho a chance de falar de alguma maneira o quanto amo esses dois,  então isso tem que ser feito. Nenhuma chance de reforçar o amor pelas pessoas pode ser desperdiçado – isso é um dos lemas que venho tentando seguir desde que decidi ser uma “Pessoa Melhor”, por assim dizer.

Não queria falar muito sobre a importância desses dois, já que escrevi muito sobre o Nicola aqui e o Daniel… bem, o Daniel não preciso falar muito, tendo em vista que o último presente de aniversário que ele me deu é isso aqui e por si só já fala muito sobre como é esse moleque. Só um adendo: ele fez 19 anos.

O mundo dos homens é bastante divertido por ser mais simples e fácil. Quer dizer, geralmente é assim, não sempre. Só sei que me atraio muito por coisas totalmente imbecis, tipo guerras de maçã-do-amor e escorregar em lona molhada, e isso são coisas que poucas meninas fazem.

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Sobre a iliteracia das casas

Da próxima vez em que passar pela porta, certifique-se de que sabe pelo quê está procurando. Se for algo que está à vista, pegue-o e saia, o mais cedo possível. Não se demore; as paredes se acostumarão à sua presença. Quando se passa tempo demais dentro de quatro delas, todas adquirem, eventualmente, a sua feição. Todas elas, e também todos os objetos que estão ali dentro olharão para você como se você tivesse sempre pertencido a eles. Não é algo errado isso. É algo que acontece.

Digo isso porque me parece que esta noção some a todos que passam pela porta, não só a você. Quando a casa é nova ao olhos, e se mostra agradável, ou assustadora, ou parece oferecer algo e nada ao mesmo tempo, imagino que deva ser normal querer se demorar um pouco. Mas para uma casa, não são as palavras que contam. Você pode até avisar, “estou de saída”. Mas casas não falam e nem ouvem, você sabe. Para uma casa, o que importa é o tempo que você passa ali. Pense numa situação assim, dessas que acontecem a toda hora: você acaba de se mudar, e o ambiente lhe parece hostil e inexplorado, por menor que seja. Passe algum meses ali e tudo lhe parecerá familiar e até meio velho. Todos os cantos serão de seu conhecimento e todo você estará espalhado pela casa.

Aí você me dirá, “sair de casa é algo que todos fazem, não?”. Sim, é sim. Todos saem de casa. Por um momento ou de vez. Mas imagino que sempre quando se sai por um momento, as paredes ficam no aguardo, esperam que o silêncio e o vácuo sejam preenchidos novamente. Mesas, cadeiras, sofás, tudo isso também espera. Você sabe que ninguém constrói casas para que sejam vazias. E quando alguém se muda de vez, e de aviso prévio encaixota todos os seus pertences, vai-se algum tempo, quem sabe dolorido, até alguém novo chegar com mesas, cadeiras, sofás, tudo isso diferentes.

Por isso digo: só se passa muito tempo onde se quer ficar por muito tempo. Lembre-se mais uma vez de que casas não falam; são surdas. Elas não conhecem o alfabeto, não conhecem palavras. Você pode reclamar o quanto quiser da iliteracia da casas, mas você sabe, isso não terá efeito algum, pois mais uma vez, casas não ouvem. Os únicos fatores que parecem reconhecer, e até com certa dificuldade, são presença ou ausência. O vazio ou os livros da sala.

Assim, da próxima vez em que entrar, saia logo. Assim como alguém que procura um lugar para morar nos anúncios do jornal. E só traga panelas e travesseiros se souber que ali vai ficar por pelo menos algum tempo.

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Sobre cidades e cinema

Cinema é uma arte sentimental, que une inconsciente e memória de quem o faz e de quem a ele assiste. Cinema é sensorial – filmes são como viagens a países distantes. É experiência de vida: inútil comparar as suas com a minhas. Não gosto de ficar explicando meus motivos, mas afirmo que não pretendo analisar nem indicar nada. Já que estou no clima viajante, escolhi algumas cidades que amo e filmes sobre elas que estão na minha lista de amores cinematográficos.

Primeiro, e obviamente, New York. Escolhas possíveis seriam Taxi Driver, Manhattan (ou qualquer um do Woddy Allen), Gangues de Nova York,  O Poderoso Chefão, Cidadão Kane, Hair, Kramer vs. Kramer, Era uma Vez na America, Eyes Wide Shut e mais um monte de filmes que eu amo. Mas eu escolho Midnight Cowboy (1969)

Primeiro a trilha sonora, depois o mote, depois o roteiro e as situações. Tudo é absurdo. Some o Dustin Hoffman, o Jon Voight e uma NYC confusa, cruel, sedutora e perigosa.Esse filme todo me deixa com lágrimas nos olhos.

Depois vem Lisboa. E sobre ela Wim Wenders fez um filme chamado O Céu de Lisboa (Lisbon Story – 1995)

Juntando as ruas bucólicas de Lisboa (mais especificamente o bairro da Alfama), a banda portuguesa Madredeus e sua cantora Teresa Salgueiro, e a genialidade do Wim Wenders, eu já esperava que esse filme fosse lindo. Mas ele foi surpreendente e me encantou para sempre.

Depois vem Roma, de onde sairam alguns de meus filmes preferidos. Cinema italiano é uma verdadeira fraqueza minha. Amo quase tudo. Mas acho que a escolha mais óbvia é a melhor: Roma de Fellini (1972)

Roma é para usuários avançados de Fellini, por que é meio insano e desconexo. Esse é um filme que acho que faz parte do meu inconsciente, pois eu às vezes acho que eu vivi Roma de Fellini. Fora que há cenas impagáveis como o desfile de moda do vaticano.

Um post meio desconexo depois de um feriado estranho!

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Guia de sobrevivência europeu – Capítulo 1

Itália – Quando estiver na Itália, nunca coma nada em praças principais. Nunca. Dentro de 30 segundos, cerca de 50 mil pombas voarão em direção à sua cabeça. Em Veneza, inventei um termo para essa situação, algo como “vamos sair daqui galera, antes que role um Hitchcock”.

Não se preocupe em aprender italiano. Aprenda somente o verbo “prendere”, que significa “obter”, ou “pegar” e “voglio”, que significa“quero”. Para substantivos e artigos, use palavras do português, do inglês ou do espanhol pronunciadas com um forte chacoalhar de mãos. Enfatize o final das frases e alongue as vogais. Pronto, agora você pode efetivamente pedir bilhetes de trem/avião/ônibus, troco, comida ou qualquer coisa parecida (e seus amigos poderão se divertir à beça filmando um completo idiota chacoalhando as mãos enquanto grita palavras em inglês, e irão se divertir mais ainda colocando o filme no You Tube mais tarde).

Se estiver viajando da Inglaterra para a Itália, não espere ouvir pedidos de desculpas ou licença como você já escutou pelo menos 30 vezes por dia na Inglaterra. Ao invés disso, prepare-se para ouvir milhares de “cazzos”, “va fanculo”, e outras palavrinhas bem legais. Anote-as num papel e use-as enquanto estiver enfrentando qualquer um dos 30 engarrafamentos que acontecem durante o dia em estradas com pelo menos 3 pistas.

(Importante: se você achou a idéia das pombas muito legal e está pensando em tirar uma foto com 50 pombas espalhadas pelo seu corpo – como eu vi algumas pessoas fazendo-,  pelo amor de deus, faça um favor à humanidade e deixe que elas lhe transmitam uma doença fatal).

Suiça – Viver na Suiça é muito simples. Aprenda Italiano, Francês, Alemão e Romanche (?), troque seu dinheiro que é usado no resto da Europa por uma moeda estranha, prepare-se para um frio de –22 graus comprando quilos de roupa quente que geralmente custam 220 libras por peça, ganhe um salário de pelo menos 8mil francos por mês para pagar as despesas com comida e pronto. Você pode morar livremente no país.

França – Prepare-se para ver as pessoas conversando com você normalmente e esperando uma resposta logo depois que você disse para elas, “je ne parle pa Français”( eu não falo francês). Prepare-se também para ouvir todos os filmes e seriados, absolutamente TODOS, em francês. Quando você for ao cinema esperando encontrar um filme americano não dublado no qual você entenda tudo o que as pessoas falam, você vai descobrir que a sua única opção é o novo filme da Drew Barrymore sobre Roller Derby.

Se ficar muito tempo por lá, você vai começar a assimilar o francês e perceber que 9 das 10 palavras faladas são formas de polidez para se pedir o que quer. Eu imagino que eles devam mandar alguém calar a boca dessa maneira: “Você poderia, por favor, se isso não fosse incômodo para você, e se você não se importar de verdade, parar de falar um pouco (por favor)?”. Além disso, você vai perceber que os franceses pensam ser um tipo de centro do mundo igual o centro do mundo anglo americano, só que um pouco mais poderoso e de melhores maneiras.

Para conversar com as pessoas, só mesmo gesticulando e falando um milhares de “s’il vous plaît”e “merci” nas frases que você tentar construir. Mas você não vai precisar aprender mais do que isso, já que comprar vinho e queijo no mercado é com certeza o que vai te fazer mais feliz – e você não precisa falar com caixas de supermercado em lugar algum do mundo. Compre vinho e queijo no supermercado da Itália também, mas nunca nos supermercados da Inglaterra.

Espanha – Se virar na Espanha sendo brasileiro é muito simples. Como todos temos domínio avançado do portunhol, conversar com as pessoas não poderia ser mais fácil. Para os substantivos e verbos, pense numa palavra em português que esteja em extremo desuso na língua falada (por exemplo, compreendo ao invés de entendo). Para os artigos, use o português deliberadamente. Pronuncie isso tudo com a língua presa, e pronto, você já fala espanhol e pode achar o caminho de Segóvia a Madrid sem precisar de dicionário algum.

O melhor que você pode fazer enquanto estiver na espanha, culturalmente falando, é aprender os palavrões. Todos eles são foneticamente perfeitos e ofendem até mesmo os mortos da família de quem você está xingando. Para se iniciar nesta arte, entenda que TODAS as ofensas incluem a mãe do indivíduo, e isso já é regra. Você pode começar com “la concha de tu madre”, e a partir daí incluir na sentença todos os outros familiares (principalmente os mortos)  e  verbos do tipo “cago” que conseguir lembrar.

Quando você sair para beber com seus amigos, descobrirá que todas as bebidas vêm acompanhadas de um aperitivo, o tapa, na grande maioria dos bares. Isso te incentivará a ficar ainda mais bêbado do que nos outros países. Mas isso não será problema algum, já que você começará a pegar os cardápios para se distrair e perceberá que, na Espanha, as pessoas comem “porra” e bebem “chupitos” e “carajillos”. Sua diversão de bêbado estará então garantida pela noite toda, principalmente a partir do momento em que você começar a gritar bem alto “quieres una porra?!” para seus amigos enquanto caminha para outro bar.

PS.: Na Espanha é extremamente fácil ficar bêbado sem gastar absolutamente nada. À noite, todas as pessoas na rua te entregam cupons que valem uma bebida em diferentes casas noturnas. Por isso mesmo, a Espanha até agora é meu lugar preferido.

Este é o fim do capítulo 1. Para o capítulo 2, teremos guias de sobrevivência para a Bélgica, a Alemanha, a Inglaterra e, quem sabe, a Ucrânia, que é o meu próximo destino.

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O homem mais solitário do mundo

O homem mais solitário do mundo não sabia que o era. Obviamente, já que não há estatísticas confiáveis para mensurar isso. Mas sabia que existia algo errado, e no silêncio dos dias e noites sozinho matutava a respeito.

A princípio, imaginou ser o nariz. Porém após diligente pesquisa de campo concluiu que seu nariz não era lindo, é verdade, mas estava no mesmo lugar dos narizes de todas as pessoas do mundo, o que devia indicar alguma correção anatômica. Também não eram os olhos, apesar de um pouco caídos. Tampouco era a boca.

O homem mais solitário do mundo tinha dois braços e duas pernas, em cujas extremidades se conectavam mãos e pés, com todos os dedos. Não era o homem mais esperto do mundo, disso sabia, e da mesma forma sabia estar longe de ser o mais ignorante – era, de fato, um homem comum, mediano, medíocre, como a grande maioria dos homens.

Mesmo assim, era sozinho.

Talvez por ser excessivamente tímido, pensou. Talvez. Pode-se dizer que o homem mais solitário do mundo era sem dúvida um homem calado. E nesses vácuos, ocupados pelo éter do silêncio, lembrava. Lembrava-se da vez em que esmurrara um menino no colégio, por as palavras lhe terem fugido, e depois se arrependera; e também de outra ocasião, em que quisera esmurrar um rapaz em um bar, mas não o fez – e se arrependera por isso também. Donde concluiu que as outras pessoas serviam apenas para isso: fazer com que se arrependesse. E assim, mesmo quando as coisas pareciam ir bem, algo lhe puxava pelos cabelos e tirava a vontade de sair da cama.

Certa manhã, admirando-se ao espelho (não que houvesse muito a ser admirado, ele sabia), o homem mais solitário do mundo deteve-se em seus ombros; eram ombros retesados, ele reparou. Ombros tensos, acrescentou em pensamento. Como se estivessem sempre expectantes, preparados para receber uma pancada. Tensão. Era isso que lhe viajava o sangue. Que o punha acuado. Tudo residia naqueles ombros. Mas o homem mais solitário do mundo, distraído, deixou escapar a óbvia constatação. Como já foi dito, era um homem mediano, medíocre, era como a grande maioria dos homens e portanto tão sensível quanto a couraça de um paquiderme. Não dava por essas coisas, afinal.

Seguiu, vida afora, com seu nariz anatomicamente sensato, seus ombros em guarda, sua solidão e sua dúvida – onde terão ido todos?

Até que o homem mais solitário do mundo morreu, provavelmente de desgosto. No velório, o café esfriou sem ser tocado, prescindiu-se das preces, do choro, dos soluços e dos pêsames – afinal, oras, não havia ninguém. A certa altura, no início da manhã, apareceu um ser vivo, o único amigo do homem mais solitário do mundo. Tratava-se do segundo homem mais solitário do mundo, que deu uma olhadela em torno e precisou sair precipitadamente, pois tinha trabalho a fazer. Gostaria de desculpar-se com alguém por não ter vindo mais cedo, é que, veja só, um azar danado, justamente naquela noite havia conseguido um encontro. No entanto, na falta de interlocutor, virou as costas sem nada dizer e saiu. E lá ficou o homem mais solitário do mundo, matéria inerte, agora gozando a solidão eterna – seria fácil para ele adaptar-se, creio eu.

A morte do homem mais solitário do mundo não deu no jornal. Mas quando a notícia se espalhou, por meios desconhecidos, ninguém deu lá muita importância. Um erro de cálculo. Nem todos os homens do mundo sabiam, mas a morte do homem mais solitário do mundo tornava a cada um deles um pouco mais solitários.

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